terça-feira, 29 de abril de 2008

EQUADOR



Com a aproximação do começo das gravações da tão badalada série baseada no romance "Equador" deixamos aqui registados breves excertos que descrevem os personagens Luis Bernardo e o casal Ann e David.

Tinha 37 de idade, era solteiro e tão mal comportado quanto as circunstâncias e o berço lho permitiam ‑ algumas coristas e bailarinas de fama equivalente a todas as suspeitas, ocasionais empregadas de balcão da Baixa, duas ou três virtuosas senhoras casadas de sociedade, e uma muito falada e disputada soprano alemã que estagiara três meses em São Carlos e de que constava não ter sido o único frequentador. Era, pois, um homem dado a aventuras de saias mas também a melancolias. Aos 22 anos deixara o curso de Direito em Coimbra mas, para grande desgosto do seu já falecido pai, a sua projectada carreira na advocacia não fora além de um curto estágio no escritório de um reputado advogado de Coimbra, do qual saíra esbaforido e para sempre aliviado daquela suposta vocação. Regressara à sua Lisboa de sempre, onde se ocupara de dispersos ofícios, até ter herdado do pai a posição de sócio principal da Companhia Insular de Navegação: três navios, de cerca de doze mil toneladas cada um, transportando carga e passageiros entre a Madeira e as Canárias, o arquipélago dos Açores e as ilhas de Cabo Verde. A Insular tinha os escritórios situados num prédio ao fundo da Rua do Alecrim, os seus trinta e cinco empregados espalhados pelos quatro andares do edifício pombalino e ele próprio instalado num amplo salão, com duas janelas rasgadas sobre o Tejo, que vigiava com a atenção de um faroleiro, ao longo dos dias, dos meses, dos anos. Ao princípio, Luís Bernardo criara a ilusão de que dali controlava uma armada atlântica e quase uma parte dos destinos do mundo: conforme os telexes ou as comunicações‑rádio dos seus únicos três navios iam chegando, assim ele ia actualizando o seu paradeiro com pequenas bandeirinhas que espetava no imenso mapa de toda a costa ocidental da Europa e de África, que preenchia a parede do fundo. Depois, aos poucos, foi‑se desinteressando do paradeiro diário do Catalina, do Catarina e do Catavento, deixou de espetar diligentemente as bandeirinhas no mapa, embora continuasse a comparecer religiosamente às partidas e chegadas dos navios da Insular, na Rocha Conde de Óbidos. Só uma vez lhe ocorrera, por espírito de descoberta ou por dever de ofício, embarcar num dos seus navios: fora de ida e volta até ao Mindelo, em São Vicente, numa viagem tormentosa e desconfortável, para encontrar uma terra que lhe parecera desolada e absolutamente despida de qualquer coisa que pudesse interessar a um europeu do seu tempo. Explicaram‑lhe que aquilo não era bem África, antes um pedaço de lua caído ao mar, mas ele não se motivou a ir mais além, ao encontro dessa tal África de que lhe chegavam tantos relatos extasiados.

Ficara‑se para sempre pelo escritório da Rua do Alecrim e pela casa em Santos, onde vivia sozinho com uma velha governanta que herdara de casa dos pais e que sentenciava, volta e meia, que «o menino precisa de se casar», além de uma ajudante de cozinha, uma moça da Beira Baixa, feia como um porco‑espinho. Almoçava invariavelmente no seu clube de sempre, no Chiado, jantava no Bragança ou no Grémio ou pacatamente em casa, fazia serões de cartas com os amigos ou visitas sociais em casas de família, ocasionalmente o São Carlos, festas no Turf ou no Jockey. Era bem relacionado, espirituoso, inteligente, bom conversador. Tinha a paixão do estado do mundo, que acompanhava com a assinatura de uma revista inglesa e outra francesa e era, correspondentemente, fluente nas duas línguas, coisa rara na Lisboa desse tempo. Interessara‑se pela Questão Colonial, lera tudo sobre a Conferência de Berlim e, quando a questão ultramarina começou a ser objecto de apaixonadas discussões públicas, ainda como sequela do Ultimatum inglês, publicara dois artigos no Mundo, que foram amplamente citados e discutidos pela sua análise de uma rara frieza e equilíbrio, por entre o furor patriótico e antimonárquico dominante nos espíritos, em contraste com a aparente condescendência do Senhor D. Carlos. Defendia ele um colonialismo moderno, de matriz mercantil, centrado na exploração efectiva das coisas que Portugal tivesse capacidade para levar a cabo, através de empresas vocacionadas para a actividade em África, geridas com espírito profissional e «atitude civilizacional», e não mais «entregue aos desígnios dos que aqui não sendo ninguém, lá se comportam como sobas, piores do que os que encontraram, e não como europeus, idos da civilização do progresso, ao serviço do seu país».

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Descrição de Luis Bernardo

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Foi então que Ann o conheceu. Num domingo à tarde, nas enfadonhamente inglesas tardes do «AII India Cricket Club» de Dehli, onde as conversas eram exactamente as mesmas desde há duzentos anos, só variando a geração ‑ que não os nomes de família dos personagens envolvidos nas conversas. Ao contrário de David, Ann vinha de uma família que frequentava o «All India Cricket Club» de Dehli há quatro gerações sucessivas. Mas para Ann, o futuro não passava pela Índia, mas sim pela Inglaterra. Para ela, o coronel Rhys‑More reservara um futuro diferente e especial, com algum Lord de passagem pelas índias, a quem a beleza, a inteligência, a educação perfeita e as qualidades de sociedade da filha não deixariam, quando a oportunidade se apresentasse, de atrair e de largamente compensar a insuficiência do seu dote e a ausência de título de nobreza familiar. Quatro gerações de antepassados dedicados ao serviço da índia e dois irmãos alistados no Exército que combatia pelas fronteiras do Raj nos traiçoeiros desfiladeiros do Khyber Pass, assim como a sua virtude e os seus dons naturais, faziam dela, aos olhos do coronel e da sua esposa, um muito aceitável e recomendável contrato de casamento. Ann não fora educada para conhecer e amar a índia, mas sim a distante Inglaterra onde jamais pusera o pé. Tinham‑lhe ensinado que a terra onde nascera e crescera, onde se fizera mulher, era apenas um lugar de passagem em direcção às ruas, aos restaurantes, aos salões, à vida dessa mítica cidade de Londres, que só conhecia das revistas que o coronel assinava com a devoção inquebrável de um servo que queria estar a par das notícias sobre o amo.

Tudo isso se desmoronou num dia. No dia em que ela conheceu David Jameson. A sua programada distância, o seu aconselhado recato desabaram, como um castelo na areia, sob o efeito da fúria, da ambição, da vida, que jorravam do olhar, da voz, dos gestos, da descontrolada veemência que irradiava dele. Em cinco horas que conversaram, dançaram, jantaram e tentaram em vão fingir‑se distraídos com outras coisas ou outras pessoas, ela ficou a saber mais da índia do que tudo o que tinha aprendido em vinte e cinco anos de vida nessa terra.

Ele era um jogador: um jogador compulsivo de cartas, um vício largamente alimentado nas noites do clube dos oficiais ingleses em Bangalore, e um jogador em relação à própria vida. A Índia tinha‑lhe cimentado o gosto pelas grandes jogadas, as grandes apostas, a fé na cartada do destino e o gosto pelo risco e pelas atitudes de tudo ou nada. Era como se não houvesse tempo a perder, como se tudo devesse ser jogado em cada cartada, em cada oportunidade, em cada brecha que os outros abriam: tinha pressa de viver, de forçar as coisas a acontecer, em lugar de ficar à espera que a fortuna lhe batesse à porta. Era isso que fazia a sua atracção, a necessidade compulsiva que tantas mulheres sentiam de se aproximar dele, o que desarmava os adversários, o que deixava os outros ‑ os que concorriam com ele na carreira, no amor ou na mesa de jogo ‑ sem saber como aparar os seus golpes, como acompanhar as suas apostas. Foi isso que lhe pôs Ann aos pés, nessa mesma noite. Quando ele a levava a casa, num rickshaw coberto puxado por um sikh, a quem ele tinha dado uma discreta ordem para não se apressar, e, de repente, lhe segurou a mão, mergulhou fundo nos olhos dela e lhe disse: «podemos seguir as convenções e ficar por aqui, agora, ou podemos começar já a não perder tempo. De uma maneira ou de outra, você é a mulher da minha vida e nunca mais me vou embora da sua vida. A escolha é sua e é a de adiar ou não o que é inevitável», ela percebeu que ele tinha razão, que era inútil estar a adiar o que já não tinha mais solução nem fim à vista. Assim, ela rendeu‑se, entregou nessa noite quente e húmida de Dehli tudo o que tinha acumulado em vão de ensinamentos e cautelas, de reservas e planos de futuro. Foi como se tivesse nascido verdadeiramente nessa noite e tudo o que estava para trás na sua vida não tivesse sido mais do que um inútil exercício de previsão contra o destino. E ele colheu tudo. Não com a delicadeza de quem colhe uma flor num jardim, mas com a voracidade de quem devora o jardim inteiro.

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Em menos de dois meses, e sob a ameaça de um escândalo latente, Ann Rhys‑More e David Jameson estavam casados. E, com o passar dos meses, a tão temida gravidez pré‑nupcial, que tinha aterrorizado o coronel seu pai, revelar‑se‑ia um perigo sem fundamento: David era estéril, como o revelaria uma consulta médica de rotina. A sífilis, que tinha contraído no bordel do marajá de Bangalore e que julgara curada sem nada mais do que a recordação das dores lancinantes que padecera e dos tratamentos humilhantes a que tivera de se expor, afinal deixara para sempre uma marca incurável no corpo e no amor‑próprio. Apesar de tudo, foi Ann quem melhor suportou essa notícia: «não troco o homem que amo e que mais admiro por um pai em potência» ‑ explicou a si própria, às amigas e aos pais. Essa foi a primeira vez que Ann prometeu a si mesma que não deixaria nunca o marido.




domingo, 13 de abril de 2008

EQUADOR - Oficina do Livro (2003)

Angariando os maiores elogios por parte da crítica e dos que escrevem, Miguel Sousa Tavares, através do seu estilo acessível, directo, frontal e cativante criou um fabuloso romance que se debruça sobre o trabalho escravo numa época em que a escravatura se encontra já abolida por lei.

Situando-se nos ínicios do Séc. XX entre Dezembro de 1905 e de Janeiro de 1908, o romance tem como personagem principal, Luis Bernardo Valença, indivíduo solteiro, culto, dandy nos gostos e hábitos que é convidado pelo rei D. Carlos para o cargo de Governador Geral de S. Tomé e Príncipe, tendo a sua nomeação como objectivo convencer a opinião pública inglesa, na pessoa do Cônsul Britânico local que a prosperidade vivida por aquela colónia não se baseava no trabalho escravo mas em mão de obra vinda de Angola. Essencialmente "Equador" procura desmistificar a idéia de "brandura" do colonialismo português, pois imperava uma falta de liberdade prática, uma vez que Portugal nunca assimilou muito bem o final da escravatura nas suas colónias. Os Contratos de Trabalho não passariam de mera formalidade.
Luis Bernardo é em suma um representante do Portugal Novo que se estava a construir na altura, embora não de uma forma organizada, revelando as mudanças mentais que sempre foram o maior desafio do nosso país e que infelizmente apenas uma minoria os aceita.
Paralelamente aos factos históricos e políticos da época, assistimos ao percurso pessoal de Luis Bernardo, aos seus amores e desamores...primeiro com Matilde uma portuguesa bem casada, depois com Ann esposa do Consûl Britânico, mulher dada aos prazeres sensuais da carne com quem vive uma paixão avassaladora e proibida.

Romance de paixoes extremas e convicções fortes e inabaláveis, Equador permite através de Luis Bernardo recriar as misérias e grandezas da alma humana, as suas qualidades e vícios, ambições e receios e as pequenas "estórias" que se escondem por detrás da História.

sábado, 29 de março de 2008

Opiniões...sensibilidades.



Dispusemo-nos a colocar aqui a compilação de comentários sobre o que pensamos deste actor...
Dirão talvez que não é oportuno a esta altura, mas tudo vale a pena quando a alma não é pequena, como dizia F.Pessoa.
Todas as ocasiões são óptimas quando se pretende, não exaltar, mas falar de alguém que executa o seu trabalho na perfeição.
Em baixo manifestamos as nossas opiniões que são também um retrato nosso, porque nas entrelinhas abrimos um pouco a porta da nossa sensibilidade.


KELLY

O que leva uma pessoa a pisar um palco e expôr-se a uma plateia de desconhecidos? Não debitar um texto apenas, mas retorcer-se todo, respirar dificilmente e deixar o rubor subir-lhe ás faces?
A resposta é fácil mas não redutora. Vocação. Capacidade de vestir outras peles e de lhes dar voz. O que me atraiu no Marco D'Almeida foi a expressão fisionómica deste actor, que reflecte o estado emocional dos personagens que intrepreta, como a atitude corporal, as inflexões, o comportamento cénico.
Reproduz no seu rosto diversas máscaras que são no fundo o passaporte para ele e para nós para mundos imaginários.
Tive a oportunidade de ver umas fotos do seu trabalho em "Quando os Lobos Uivam" e fiquei pasmada com a transformação. Assemelha-se a um boçal de higiene duvidosa, um homem rude do campo de poucas falas e muita força.
Como Gonçalo era um homem arrogante frio e implacável, como todos os homens de negócio que não têm tempo a perder...
Já com o Tomé mudou para um inadaptado, inseguro, emocionalmente dependente de quem gostava...
O convencimento que transmite como uma corrente de energia é tão real que estamos ali com ele a vivenciar toda a experiência.
Este talento, vocação, veia, sei lá, é algo natural que nasce connosco, assim como o dom de cantar, de pintar, de escrever...
É fundamentalmente este dom que admiro nele.


PASSION

POIX!!!Marco,
Dexde ke te dexkubri kumu aktor , a minha opinião xobre ox aktorex e xériex portugax mudaram kompletamente..Kumexei a ver tudu kom outrux olhinhux...
A tua melhor perxunaxem até agora foi o Gonxalu!! Ximplexmente arraxaxte!
Adurei verte au vivu em " The Pillowman".Foi uma experiênxiaxinha ke nunka exkexxerei!!
Éx u melhor aktor da tua Xeraxão!
Kixxex!


ANDREIA

O Marco é alguém muito especial!É um grande, grande actor, para muitos o melhor, Não deixa ninguém indiferente com a sua magnífica arte de representar..
Há pouco mostrou-nos mais uma faceta do seu talento : escritor.
Foi uma agradável surpresa. O seu talento é enorme...


RACHEL

Já escrevi muita coisa sobre o que penso sobre o actor Marco D´Almeida.
Nunca é demais salientar o seu enorme talento e a sua versatilidade espantosa sempre que se " põe" na pele se uma nova personagem!
É o actor português que mais empatia cria com os espectadores. Simplesmente fora de série!Dificilmente encontramos actores que consigam seduzir o público tão completamente!
Criou personagens que são autênticas obras primas. A personagem Gonçalo é inesquecível e é , sem dúvida, a melhor personagem masculina de sempre da ficção portuguesa.
Espero, sinceramente, que o Marco tenha uma carreira fantástica e que continue sempre ao seu melhor nível!
Beijokas.


CHIBI


Falar sobre o Marco é porventura um assunto que mexe com as emoções. Dotado de um talento que poucos têm e de uma beleza cativante, despertou-nos com a sua brilhante e viciante interpretação como Gonçalo Martins de Mello, em "Tempo de Viver". A partir desse momento (re)conquistou novos fãs que o acompanham com muito carinho.
Regressou como Tomé, na telenovela "Ilha dos Amores" e pelo meio ainda teve tempo para majestosamente representar no teatro com a peça "Pillow Man".
Marco nasceu em Moçambique e com apenas 34 anos já provou o seu grande talento, tanto como actor e agora também como argumentista.
"Polaroides da minha avó", foi a sua primeira incursão na escrita a ganhar a luz do dia, mostra a sua incrível sensibilidade para questões por vezes complexas do foro sentimental.
Já foi Romeu, Alferes, Fotografo e Tubarão ,lolol, qualquer desafio proposto, Marco supera com grandiosidade, entregando-se com devoção a cada papel. A sua versatilidade decerto nos continuará a surpreender juntamente com a sua criatividade de conseguir entrar nas personagens que aceita desempenhar.
Por enquanto os fãs esperam e desesperam para que Equador comece e que encha a T.V com o seu génio rebelde indomável.


quarta-feira, 19 de março de 2008

Inveja...desgosto ou pesar pelo bem ou felicidade do outro. Desejo violento de possuir o bem alheio.



A inveja é o sentimento mais desprezível e dissimulado da alma humana.
É constituido na sua essência por um conflito. A aversão a si mesmo e o desejo de auto-valorização, de tal forma que a alma assim dividida fala para fora com a voz do orgulho e para dentro com a voz do desprezo.
Confessamos o ódio, a humilhação, o medo, o ciúme, a tristeza, mas inveja nunca. Se admitissemos a inveja ela deixaria de existir imediatamente e transformar-se-ia em franca competição ou desistência resignada. A inveja alimenta-se do facto de ser sempre oculta.

Tornamo-nos invejosos quando desistimos dos objectivos que almejávamos, por intimamente acreditar que não os merecemos. Não é o falhar os objectivos que é doloroso, mas sim a falta de mérito.

Nasce então a necessidade de desapreciar esses objectivos de destruí-los ou substituí-los por simulacros medíocres, atribuindo-lhes mais valor que os originais. É precisamente nas dissimulações que a inveja se revela da forma mais clara.
As formas de dissimulação são muitas, mas a inveja essencial tem como objecto os bens espirituais, porque são abstractos e impalpáveis e muito mais aptos a despertar no invejoso um sentimento de exclusão irremediável, que o transforma em vida num condenado ao Inferno.

Como combater um dos 10 pecados mortais?

A virtude não se ensina segundo Platão e Sócrates. É uma qualidade primária, uma característica variável consoante o nível de evolução do ser pensante, que sente que reflecte e age.
Para combater os maus sentimentos, nada melhor que explorar e melhorar as virtudes. O acto de reprimir os maus pensamentos é sempre louvável mas se não for acompanhado por um processo de auto-conhecimento não terá sentido.

Sem uma atitude racional e sem bom senso, resta-nos a hipocrisia, a repressão cega e insensata com o verniz da virtude piedosa.

sábado, 8 de março de 2008

IMAGEM : uma imagem é melhor que mil palavras..

Atitude, aparência e coerência na comunicação visual e verbal são ferramentas essenciais para uma imagem credível. Melhorar, controlar a impressão que transmitimos aos outros é um activo que devemos analisar, desenvolver e rentabilizar de forma inteligente.

Erradamente toda uma indústria ligada á cosmética, moda, cirurgia plástica e mundo do espectáculo, cultiva neste último século a sobrevalorização do corpo como imagem. Mas uma imagem exterior, superficial, visando principalmente o público feminino.
Nos últimos anos este "culto do corpo" tornou-se numa preocupação generalizada que atinge todas as mulheres independentemente da faixa etária, classe social ou religião. O ideal de beleza sofreu alterações radicais e a todo o instante somos confrontadas com celebridades anoréxicas, com corpos moldados á custa de greves de fome sucessivas, estabelecendo um terrorismo psicológico porque se vivencia uma autêntica ditadura da beleza, em que o corpo é o alvo de todos os sacrifícios.

Contudo é forçoso salientar o quanto é importante a nossa imagem, porque é através dela que os outros nos julgam e avaliam.
Mas a imagem pessoal constroí-se com base em premissas que não se esgotam no que vestimos e no que comemos. É muito mais abrangente, porque transmite a forma como nos relacionamos, o nosso nível social e profissional, a nossa forma de estar.
Já dizia Tom Ford: " o funcional no vestir é secundário; o essencial é a expressão do indivíduo."
A construção de uma boa imagem pessoal segundo os especialistas está relacionada com dois conceitos básicos : dualidade e credibilidade.
A 1ª significa se as pessoas têm uma boa imagem ou não, a 2ª significa que uma boa imagem passa por transmitir confiança e auto-estima.
A nossa imagem pessoal é formada em três momentos distintos:

1ª - A primeira Impressão
2ª - A Imagem Inicial
3ª - Manutenção da Imagem

Para se formar a 1ª impressão há quem diga que são apenas necessários 3 segundos. O que o influencia esta 1ª impressão? O conjunto da imagem, a voz, o vocabulário empregue, a linguagem corporal. Para além disso a aparência e o vestuário conta e o que mais chama a atenção além dos tradicionais traços de higiene pessoal, é a expressão facial.
A imagem inicial reune os nossos comportamentos, hábitos, postura, ética, conhecimentos, habilidades e competências, que temos de utilizar correctamente para conquistar a confiança e credibilidade dos outros.
Quanto à manutenção da imagem... este momento ocorre quando a nossa imagem já está formada. Questionamo-nos. Será que sabemos realmente como os outros nos vêem?
Se sim, então não nos devemos preocupar...no entanto a melhoria da imagem deve ser contínua e constroí-se com progressivas e pequenas conquistas e não apenas com uma grande conquista.

A Imagem Pessoal é a nossa reputação. Sabendo gerir uma boa imagem melhoramos a nossa auto-estima, o desempenho social e profissional e consequentemente o nosso poder de comunicação, bem como a nossa influência.











sábado, 1 de março de 2008

O Prazer de falar dos outros...

A minha vizinha tem um filho deficiente. Deficiente profundo.
Este facto dramático submeteu-a a uma dedicação exclusiva ao seu único filho. Permanecer em casa todos os dias tornou-se num hábito penoso.
A sua sala de estar tem uma enorme varanda, visto o prédio ser de gaveto, composta por várias janelas. Daquelas janelas a D. Adozinda assiste á vida ruidosa do bairro. Vê os autocarros a chegar e a partir, os dois cafés a disputarem clientela, a papelaria onde se pagam as contas do gás do telefone da luz e da água e se joga o euromilhões, o velho Clube, os rapazes heavymetal que numa garagem próxima ensaiam estrondosamente, as crianças que brincam no jardim e as que vão para a escola e o mercado.
Resta acrescentar que é costureira. Dedica-se principalmente a "fabricar" cortinados muito elaborados, mas também faz uns vestidos, uns camiseiros, umas saias para as senhoras das redondezas. A D. Adozinda não necessita de sair de casa para saber que o Sr. Joaquim está no hospital e que a loira sensual do bairro se amantizou com o dono de um dos cafés, pois através das suas janelas e do que as clientes acrescentam ela sabe tudo.
A minha vizinha passa assim o tempo e diverte-se muito porque sente a satisfação de deter alguma informação.


A bisbilhotice está relacionada com a observação quase vouyerista do quotidiano alheio que abrange também todo um falatório, uma conversação, baseados no desdém, má-língua, juizos de valor etc.
Numa era em que a comunicação e informação alimentam a curiosidade e o interesse acerca da vida dos outros, em que tudo se enquadra num contexto nacional e internacional, no que diz respeito a jornais, revistas, programas televisivos e internet, questionamo-nos: Será a bisbilhotice um defeito? Uma falha de carácter?
Este facto social tem uma base genética que caracteriza todos os animais, pela simples razão de constituir-se como resultado da curiosidade típica do ser humano.
A curiosidade intensifica as relações interpessoais e tem funções específicas. Toda a gente já bisbilhotou ou foi alvo de bisbilhotice. Já ironizou, questionou, criticou, foi vouyerista, através da constante invasão de privacidade, promovida pelo interesse colectivo em saber da vida dos demais.
É puro instinto de sobrevivência. O mexerico, a má-língua, a devassidão da vida dos outros terão nascido mal o Homem aprendeu a comunicar. E são benéficas.
Senão vejamos: os que se interessavam pelo o que acontecia aos outros tinham grandes vantagens sobre os que não se importavam com este tipo de informação. Quando as pressões da evolução da espécie fizeram surgir a competetividade, a bisbilhotice tornou-se inevitável. Apareceu para que os indivíduos estivessem informados sobre os seus semelhantes ou rivais. Quando se é inteligente sabe-se que o grau de sucesso social está relacionado com o grau de informação que cada indivíduo tem.
O 1º sucesso social é o do acasalamento, quanto maior é a quantidade e a qualidade da informação que se tem sobre os outros, maiores as hipóteses de se escolher bem o parceiro/a com quem se vai reproduzir, além de mais facilmente se espantar os rivais.
Conhecer o outro permite aos indivíduos compararem-se com eles, reforçando a sua auto-estima.
Podemos concluir que a bisbilhotice é universal porque é útil do ponto de vista psicológico e social.
Comparações e bisbilhotice são o resultado de pressões da evolução e as duas estão relacionadas porque são estratégias que podem aumentar o estatuto.
Surpreendidos?









segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Amor Próprio.


O segredo é não correr atrás das borboletas é cuidar do jardim para que elas venham até nós...

Por vezes sentimo-nos indiscutivelmente amados mas pouco considerados. E o amor e consideração necessitam de andar de mãos dadas para alimentarem o nosso ego.
Ser amado e não ser admirado, infantiliza, mas ser estimado sem se sentir apreciado é frustrante.
A auto-estima é um processo complexo para o qual não existe um só conceito. Na generalidade define-se como uma estima que a pessoa possui em relação a si própria ou mesmo o afecto que nutre por si. É a forma como olhamos para nós. Se gostamos ou não de que vemos. É um juizo que formulamos sobre a nossa pessoa. Se for positivo somos seguros e eficazes, sentimo-nos bem connosco e capazes de enfrentar desafios, se é negativo traz sofrimento, bloqueia todos os campos da nossa vida.
Existem três características fundamentais para obter a auto-estima: Autoconfiança; imagem de si próprio; gostar de si mesmo.
Tendo estes três pilares equilibrados possuimos uma auto-estima harmoniosa. Gostamos de nós, apesar das nossas limitações e imperfeições, insucessos e contratempos, porque somos dignos de respeito e amor. E esse conforto espiritual protege-nos das derrotas, sofrimento e incertezas que fazem parte da existência e sustenta a força necessária para nos reerguermos.
A percepção que temos de nós também é feita com base nos olhares dos outros sobre a nossa pessoa.
O papel dos outros, a sua opinião o que pensam de nós pode influenciar a construção da auto-estima, consoante a importância que estes têm na nossa vida. Os irmãos, sobretudo o mais velho tem um papel crucial na organização da nossa auto-estima, mas se levarmos muito a sério uma opinião e não somos capazes de a confrontar com a realidade e se aceitamos que aquilo que o outro diz sobre nós é a nossa realidade então estaremos a ser penalizados.
Quanto mais inseguros mais dependentes ficamos dos outros e do exterior.
Também é possível que em determinadas áreas da nossa vida possamos alternar a baixa e a alta auto-estima. Podemos ser profissionalmente brilhantes e a nossa vida pessoal ser um autêntico fracasso.
No entanto podemos sempre melhorar as nossas capacidades, aperfeiçoar a relação connosco e com os outros, pois a auto-estima não se reduz apenas a sentirmo-nos bem connosco próprios. Se isto acontecer corremos o risco de nos tornarmos egoistas e arrogantes.

" Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
- O senhor não tem vergonha de se dedicar a mister tão infame, quando podia trabalhar?
- Senhor, - respondeu o pedinte - estou a pedir dinheiro e não conselhos. - E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas."

(excerto sobre a A Subjectividade do Amor-Próprio de Voltaire).